quarta-feira, 27 de agosto de 2008


Mirabel 54 - Parte I


No telefone ele dizia pra sair da estação e virar à direita.
Era a primeira vez naquele bairro, não sabia muito bem qual eram as direções.
Quando se sai de uma estação de metrô em Londres, se tem uma leve impressão de estar perdida.
No último dos casos, melhor seguir o fluxo.
Ônibus, pessoas zanzando pra lá e pra cá. Carros. Vitrines. Prédios.
“Estou bem aqui numa lojinha de conveniência, está me vendo”? Eu não estava me tocando, mas ele estava me vendo agir..- depois, descreveu minhas reações - Eu ainda descordenava.
“Vire a direita”. E eu ia pra esquerda. “Não, à direita” ele dizia.
E eu pensava, “ como pode ele saber que estou andando em direção à esquerda e não à direita... está me vendo.... Quem é ele?.. Não nos conhecíamos.
O legal de escrever uma história assim é que você sabe exatamente como ela começa e como ela termina.
Ele era, quem, ao me conhecer, ia pensar se alugava um quarto em sua casa pra eu morar, ou não. O que ia definir completamente meus próximos meses em Londres.
Impressões. As primeiras são realmente as que ficam?
Porque só o que temos é apenas uma leve, simples e superficial idéia de como é a pessoa que estou vendo: bonita, feia... alta, baixa... gorda, magra...
Percepções físicas que fazem fila no pensamento, implorando uma conclusão de maior conteúdo - pelo menos nos dez primeiros minutos, não há nada que possamos concluir sem antes conhecer uma pessoa.
Finalmente o cara do casaco preto e calça jeans me conheceu.
Nos três segundos que antecederam o nosso reconhecimento, ele dizia: “você está de casaco azul e calça jeans”?
Quando me dei por conta, uma pessoa parada bem na minha frente, falava ao celular com ar de graça olhando pra mim... e a lojinha de conveniência fazia o fundo.
Desliguei o meu cel, olhei bem pra ele e disse: here i am.
Ali dentro da lojinha compraram coisas para uma festa.
Ele estava acompanhado de um amigo, que diga-se de passagem, falava duas palavras e ria, mais quatro e ria... Naqueles instantes, tive uma leve impressão de que se tratavam de pessoas as quais sinceramente, desejei que fossem meus amigos. Desejei já tê-los conhecido antes, e que eu, no meu lugar fosse uma estranha.
Fomos caminhando pelas ruas do bairro com as sacolas nas mãos cheias de cerveja e salgadinhos tipo pringles. A casa ficava um pouco afastada da estação. E ali, pensava eu, com a certeza de que iria morar em Fulham, caminharei um bocado todos os dias. Ao mesmo tempo em que tentava marcar os minutos, queria me concentrar no que eles diziam e participar.
Quando a porta da rua Mirabel número 54 se abriu, eles me pediram pra tirar o sapato.
Ao entrar no hall da sala de jantar me deparei com algumas pessoas, um mix de homens e mulheres. De gringos e brasileiros. Uma festa estava para começar.
E ele então, o cara do casaco preto, foi rapidamente me mostrar os cômodos.
Me apaixonei pela sala de estar que posteriormente transformou-se em quarto: dos donos. Tinha uma lareira linda, sofás de bom gosto. Objetos antigos. Já vinha decorada.
Subindo a escada, um quarto. Já locado. Subindo mais um lancezinho de escada lá estava o quarto vago. E mais dois no andar de cima que já estavam locados. Tudo parecia perfeito. Os donos, os amigos dos donos, a casa e o quarto: double. Exatamente o que eu precisava.
Sem mais cerimônias ele, o cara do casaco preto e o outro da camiseta vermelha, ou seja, os donos, me disseram: se quiser ficar com o quarto o valor é X. O quarto era caro mais valia a pena. Pela primeira vez tive a certeza do que eu queria, sem titubear que era, morar ali.
Em Londres, as pessoas que alugam quartos, costumam fazer entrevistas com os novos inquilinos – é pra sacar se a pessoa é mesmo de confiança e digna de convivência, como no filme “ O albergue espanhol”, o que não aconteceu comigo.
Só que a minha amiga ainda tinha que aprovar. A casa, o quarto, os donos, e vice-versa.
Sem mais rodeios, descemos pra sala e a minha resposta foi SIM. E a deles: Welcome.
A festa começou e naquele dia conheci muita gente. Eu não tinha nem duas semanas na cidade e já estava satisfeita, feliz e contente.
Não consegui pensar em outro lugar pra viver.
Não consegui não me apaixonar por aquelas pessoas.
No dia seguinte fui buscar minhas coisas na acomodação do intercâmbio onde eu até então, estava. Avisei minha amiga que tinha encontrado o lugar certo pra gente dividir quarto. Por sorte, ela confiou no meu gosto e ali moramos seis meses consecutivos.
Nesta casa passei os melhores meses da minha vida.
Dividimos contas, dividimos emoções, anseios, problemas, soluções, porres, estudo, trabalho, roupa passada, lavada, máquina quebrada, louça na pia, garrafas de vinhos, jantares, almoços, cafés, chás, amigos, amores, entradas, saídas, pessoas que chegavam, pessoas que partiam.
Jogos da verdade, da mentira, cultura, valores, viagens, festas.
Perdas e ganhos.
A única forma de conhecer verdadeiramente pessoas é convivendo com elas.
Sabendo dos seus rostos, gostos, reações, emoções, dúvidas, trejeitos.
O modo como fala ao telefone e atende à porta. Como trata os amigos de sempre e como recebe um novo. As mulheres que levam para casa, os homens que você fica.
As compras do supermercado. Sua forma de cozinhar, comer, fazer barulho, bagunça ou ler um livro.
Hábitos. Eles nos entregam.
Naquela época a gente queria tudo. E tudo era diversão e motivo de comemoração.
No ar, a satisfação de sermos jovens. Cúmplices da mesma rotina.
De um cotidiano repleto de possibilidades.
De lugares surpreendentes a espera de serem ocupados.
Costumo dizer que depois dessa época, em que conheci essas pessoas, sair pra rua cumprir tarefas e voltar para casa sabendo quem você vai encontrar, não tem preço. Talvez por que eu tenha mesmo, muita sorte.
O melhor de estar na companhia das pessoas certas é saber que você volta pro mesmo lugar onde elas estão. E torna-se viciante. E torna-se cumplicidade, vínculo, envolvimento.
E juntos dividimos o que temos de melhor e pior em nós mesmos.
E você aprende o valor da partilha, e você aprende a lidar consigo mesmo e com as diferenças do outro.
E você tem tempo pra pedir desculpas se algo saiu errado.
E você tem mais amanhã pra viver o que ficou pra trás hoje.
De uma forma muito simples, eu diria que assim fiz grandes amigos. E pude me conhecer um pouco mais...ver em mim coisas que são chatas e perceber também, que pessoa bacana eu sou.
E vi que vale a pena arriscar.
Arriscar-se a ir sozinho pra um país estranho mesmo achando que é horrível se sentir estranho, ou sozinho.
E não lamentar em nenhum momento que seja caro, despenda de coragem, ousadia, liberdade e força. E que para sempre você conhecerá pessoas que jamais conheceria se não estivesse ali. E que nunca as teria conhecido se não as tivesse conquistado.
E nessa história toda descobri também, o valor da amizade entre homens e mulheres. Sim, existe. Não é fácil mas é possível...Cinco homens e duas mulheres.
E pensam que é fácil ter amigo bonito? E pensam que foi fácil conviver na mesma casa com homens de diferentes culturas e temperamentos?, com mulheres bonitas, charmosas e inteligentes como nós? Confesso que em determinados momentos, você se rende. Mas se rende de um modo bem interessante.
Se rende aos encantos da pessoa, como pessoa.
Se rende ao que vê nela, nua e cruamente.
Ninguém consegue vestir uma máscara nem estar sempre bem arrumado com o discurso na ponta da língua, quando mora junto. Com e sem envolvimento amoroso.
O mais durão é capaz de mostrar sua fragilidade. E você fica sabendo de todos os segredos masculinos. Impossível de algum modo, não se apaixonar vez ou outra. Diante de tanta espontaneidade e respeito. Mesmo em face de tantos defeitos e admiração.
Impossível não ver as falhas no rosto de cada um, todos os dias. Mas saber passar por cima de tudo o que é irrelevante.
Com alguns você acaba por se identificar mais que com outros. Mesmo porque alguns sempre se envolvem mais com você que outros. E ainda assim, criar amizade com todos. "Flores" e "cravos" se entenderem bem. Taí, eu aprendi. E não existe coisa melhor, do que conviver com os homens, aprender com eles, ensinar muito à eles também.
Mesmo não encontrando hoje, com todos eles e não morando mais juntos e na Inglaterra, você sabe que um dia irá encontrar com essas pessoas e elas não vão te apresentar pra alguém como um simples amigo, e sim como alguém que um dia morou com você. E isso não é pouco.
Digamos que leva-se uma vida pra conhecer uma pessoa, as vezes anos pra conquistar. Mas pouco pra sentir que de mansinho, as pessoas vão entrando no coração da gente. E vão ficando, e vão modificando os espaços internos, justamente naquela lacuna que você achava que não iria ser preenchida.
O que uma pessoa é capaz de transformar a visão que temos, você nem imagina. De um assunto que seja, de uma figura, de uma obra-de-arte, de uma música, ou dos músculos do corpo.... porque sabe...altera os mecanismos dentro da gente. Mexe com os batimentos cardíacos e com a dopamina .. E ainda continuo falando de sentimentos que estão além da presença física e da distância? parece que sim. E o que essa experiência fez de nós? O que você constrói de verdade, permanece. O que você planta, você colhe. O que você quer com toda a sua alma, você tem.
E pensar que no dia em que conheci o cara de casaco preto e calça jeans na estação, não tinha a mínima idéia de tais alterações na química do meu cérebro e na concepção que faço das pessoas que entram na minha vida, e que eu peço: fique.

E pensar que todas essas pessoas, aquela casa, naquela época e a melhor experiência dos últimos tempos, só aconteceram, porque um dia, o meu ex namorado “Fabiano”, inventou de morar em Londres e um ano depois, com saudades dele, eu também fui. E foi quando ele me passou o telefone do cara do casaco preto e calça jeans e eu liguei. Ainda bem, que eu liguei.

Três anos depois, ou há dois meses atrás, fui visitá-lo em Porto onde ele mora.
Ao olhar o seu armário aberto me deparei com o casaco preto e aquela calça jeans e tudo veio à tona, até mesmo o cheiro do antigo perfume que eu usava. Nada precisei comentar, porque a gente sabe o que nos trouxe até aqui. Uma certeza única: a de que toda pessoa entra na sua vida por um motivo.
Algumas são tão especiais que te levam a pessoas extraordinárias e a lugares excepcionais. Estamos todos conectados indiretamente através de "dezessete" pessoas... Look around you and belive in me.
Algumas partes desse texto foram escritas em 2007 -
By Ju Tahan

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