Queria tanto que perdeu a graça.
A bandeja verde na cozinha. O copo de suco de laranja, o sanduíche de pasta de ovo, o mamão papaya e o yakult. Ajeitou direitinho. No caminho pro quarto a breve espiada na veuve cliquot intácta. No entanto as bolinhas da outra garrafa já tinham subido na noite anterior. Chutando a "vestimenta" calvin klein dele, entrou com tudo no quarto. Daquele jeito de quem posiciona o cotovelo na fechadura com as mãos já ocupadas. Ele dorme. O sono que pediu a deus, em sua cama deliciosamente macia. Tanto tempo por ela mesma. 10:00 no relógio e nada. Resolveu tossir. Nada. Fungou. Nada. Suspirou. Nada também. Deixou a bandeja no criado mudo. Saiu do quarto. Ligou pra amiga e pediu que ela ligasse de volta. Voltou ao quarto, deixou o celular perto da bandeja. Tocou. Alto. Opa, ele se mexeu. Conversou então com a amiga em alto e bom tom. Tratando de falar nada com nada caso ele ouvisse. E nada. Desligou. Pensou mais um pouco na vida. Tomou um livro nas mãos. Leu 3 páginas. Tirou a camisola, afundou-se na cama.
Encostou seu corpo no dele. Encaixou como se fizesse a conchinha mal-feita. Era bem menor que ele. Tentou pegar no sono. Não conseguiu. A cabeça doía um pouco. 11:00 o telefone fixo tocou. Não quis levantar. Ele dorme. Ainda dorme o sono que pediu, dessa vez, aos anjos.
Teve sede. Tomou um gole do suco. Mais sede, virou o copo de suco.
Remexeu mais um pouco. Teve fome. Comeu o sanduíche. Pensou imediatamente em escovar os dentes, dessa vez pra tirar o gosto de pasta de ovo. Tomou por cima o yakult. Mais 15 minutos e nada. Levantou. Foi para o banho. Demorou cerca de meia hora. Calmamente, abriu a porta do quarto pra não fazer barulho, dessa vez estava decidida a trocar-se e sair deixando um bilhete.
A cama estava vazia. Paralisou-se. Que diabos de meia hora foi essa.
Pegou o celular. Indignou-se. Ia ligar novamente pra amiga. No visor a mensagem: Há tempos não dormia o sono que pedia a deus. Peço aos anjos que aconteça de novo. A propósito comi seu mamão papaya.