terça-feira, 27 de outubro de 2009


Beijo, me liga.
Depois de cinco horas no telefone e o frio na barriga insuportável, decidiu. Tem que ser amanhã.
Daniel mal podia esperar pra ver de perto o que sentiu na linha. Quando duas pessoas conversam por telefone como se estivessem a um passo de si mesmas, aí vem. Tudo o que tinha de curiosidade a saber de Lohane, Daniel perguntou. Haviam se encontrado uma só vez. Um encontro bobo, desses que finaliza em beijo pela não contenção do momento. Química boa, funcionando. Lohane sentiu ali, no momento do encontro bobo, vontade de tudo com ele. Se tivesse um lugar onde o dia de amanhã não separasse, ela iria. Sem o por vir pra estragar. Ficariam horas e dias inteiros com tempo de sobra a investigar cada parte do corpo de cada um. Cada raciocínio. A batida do coração. Arrepios. Cheios de vontade, não sobraria tempo pra não tê-la.

Mas a noite acabou. Cada um pro seu quadrado e foi ela, Lohane quem pegou o número dele. Tempinhos depois, foi então que esse telefonema de cinco horas, ocorreu. Tem que ser amanhã. Mal podia esperar pra ver de perto o que sentiu na linha.

O que você faria, se sentisse frio na barriga, só de falar ao telefone com uma pessoa que você mal conhece e que só provou do beijo. E pior, se na mesma hora que você sentisse, ele também dissesse que sentiu. Só que ele verbaliza isso primeiro e você só verbaliza depois dele ter verbalizado. O que eu faria, foi o que ela fez. Se encontrar com ele. Mas ao invés de propor um encontro seguro, onde pudessem mais se conhecerem que se tocarem. Lohane rendeu-se. O perigo das quatro paredes. E lá estava ele tocando a campainha de sua casa. Daniel suava e Lohane sentia o calor passar pra ela. Colocou-o pra dentro. Respiraram um pouco, tentaram se comportar. A má notícia é que ela estava sozinha em casa. Sentia seu toque de longe. No vão entre o toque tocado e os próximos que viriam. Quando nela pegava, as mãos conversavam com o corpo. Era a conversa do telefone que ali estava viva. A prática da teoria. E no instante o motivo pra se encostarem. Os olhos de desejo. O bambear das pernas. De novo, o frio insuportável na barriga. Disparate. Lábios úmidos. Sede.

O que você faria se sentisse vontade de entrar dentro de uma pessoa. E quando todo o seu corpo colado com o dela, não é ainda o suficiente. O que você faz, quando vê na sua frente a boca que quer beijar. Quando abre os olhos e são os olhos que você quer que te vejam. Sedento. Cedendo da mesma vontade que a sua. Lohane baixou a guarda. Retirando do pensamento qualquer coisa que a impedisse de estar ali. Não pensou no depois. Não pensou em nada. Deixando o calor do corpo ir para onde quisesse. O que fez com que fizessem o que queriam fazer.

Naquele dia, queria se entregar para ele e ele estava ali para abrí-la. Soube chegar, soube fazer. A última coisa que ela queria é que ele fosse embora. O que você faria, se estivesse com o Daniel em 4 paredes e fosse esse o momento mais momento de todos os outros momentos e não quisesse que acabasse. Contaria pra ele que ele era exatamente o que ela queria pra ela? Todos esses anos. Ele aconteceu. O Daniel aconteceu na vida de Lohane. As pessoas são assim. Acontecem umas na vida das outras. Foi acontecendo até que um dia, parou de acontecer.

Ele acontecia muito na casa dela. Acontecia em festas. Acontecia eventual, casual e esporadicamente. Acontecia do jeito que tinha que acontecer porque Lohane não fazia a frente das coisas. Dos acontecimentos. E pra falar verdade, precisa de um pito. Deixava pra ele. Por ele. Com ele. Não dizia o que queria. O que gostava. Se gostava e se queria. Não pensou no depois. Não pensou em nada. O que fez com que fizessem o que queriam fazer. Davam tempo demais um pro outro. Daniel solto de um lado. Lohane livre de outro. E toda vez que queriam, acontecia o que queriam que acontecesse como sempre fizeram o que queriam, acontecer.

Ela sempre soube o que Daniel queria. Só não deixava que soubesse o quanto queria. Como queria. Já Daniel imaginava o que Lohane queria. E deixava que soubesse o quanto queria. Mas como queria, ela nunca quis saber. Talvez por imaginar que ele quisesse o que ela não queria. Talvez porque soubesse que o que ele queria não era a mesma coisa que ela queria.

Então um contou pro outro. Toda vez que ela despedia-se dele pensava consigo mesma: como o quero por perto. Como quero que ele não parta. Mas fique. Que possa ficar e não partir. Que eu possa querer e saber o quanto ele quer. Que saiba o quanto quero.
Até que um dia ele disse: te quero por perto. Presumindo que enfim queriam a mesma coisa.
Por nada hesitou em dizer o mesmo. Mas continuou sem saber o quanto ele queria. O quanto desse perto é perto mesmo. E o quanto desse querer, é querer muito.

E aconteceu de acontecerem desvios circunstanciais. Que esbarram na força do querer a cada próxima circunstância e ficam entre o que aconteceu e o que pode acontecer. No querer que queria e no querer que quererás. Entre um silêncio e outro. Em uma porta que se fecha e outra que se abre. Em meio a tempestades e dias claros de sol. Entre uma coisa pela metade e outra que se encerra. Entre o motivo do passado e a insegurança do futuro. No querer estático e na vontade móvel. Na teoria das palavras e na prática dos corpos.