sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Gido
Cancela o beijo. Tira o cotovelo de cima da mesa que eu pago a conta.
Mal termina a pastinha de ervas com torradas secas e acende o cigarro.
Garçon chato esse, veio dizer pra apagar. As janelas fazem frente e vejo o vidro. Olha a imagem e semelhança. Até que se parece comigo. Sorriso torto. Faz jeito de charme enquanto se pilha.
Olha nas unhas, sem jeito gay. Voz firme. Falava-se da lentidão do serviço. Isso que Gido tinha sempre o que dizer. Vazias birras em detrimento de seus mesmos desgostos. Coisa pouca.

Caneta emprestada sempre. Não podia ver um guardanapo em branco. A necessidade para com as palavras lhe remetem articularidades que não calam nunca. Deve ser Everesto que está sempre com ele. Dimensão maior que si mesmo. Quando não está ensimesmado. Debruça a face nas mãos enquanto melindra as palavras que lhe caem bem hoje, bem mais que nos anos de primavera-verão-sol-quente-com-chuva, em tardes no leblon, que eu me recorde. Um chop por favor, que é pra não fechar o cliclo dessa conversa fiada que a gente bate e espeta com o garfo a picanha. Cebola demais. Cancelo o beijo. Nos dentes dele a ervinha que restou da torrada seca.
Tira a cestinha de pães da mesa, solicito. Ele fuma por debaixo da mesa. Seria bom a fumaça esconder-se no momento tão ímpio. Entre um e outro cintilar das pálpebras e a cada vez que nada me deixa falar e pronunciar, em vão, faço uma automática percepção da mistura de seus palavriados com a extensão do que por detrás diz e se revela e concentro, tentando abominar o que não acredito e começo a concluir o que não gostaria e mais uma vez, cancelo o beijo. Lembro então das fitas de Lauro Trevisan: pense positivo. E troco positivo por diferente na minha cabeça e vem o filme da apple transcrito.
Não seguro o pensamento e não digiro o que ouço.
E ele volta a lembrar das torradas procurando-as sob a mesa. Pedi que tirassem, repiquo. A picanha gelou, as cebolas não estavam no ponto. O beijo agora, está mais que cancelado.
Passa-me então, o guardanapo escrito. Entre aspas leio: o presunto que pende dos pães lhe parece obsceno.

Nada mais excitante, penso. O que tem a ver o presunto com as torradas de ervas, com a picanha e com esse piquenique filosófico todo, que estou sendo egoísticamente obrigada a ouvir e que de obsceno não tem nada. Logo em seguida verbalizo: O que pode ser mais excitante?
E lá vem ele com as vírgulas. Se não entendeu, posso explicar.

Imediatamente, pouso a cabeça nas mãos. E penso: é você o presunto, pode ter certeza disso...
Cavou a própria sepultura e ainda não se deu conta.
Faço sinal pedindo a conta enquanto ouço a sinfonia dos pães em clássica oratória extendendo-se a salames, peito de perus e parma. Vou engolindo todos eles, sem sentir o gosto. Muda e ocultamente. E ouço: mais um chop, por favor - vindo de sua boca.
Cancelo o assunto, limpo a boca no guardanapo do presunto, acendo o cigarro e já saí.