Calma que eu tô de salto...
Se tem uma coisa que é irritante é servir de guia turístico pra quem vem passar uma semana no Rio na alta temporada. Não, não tenho vocação pra ser guia de nada. Frequento o que manda no momento e no momento estou ausente do que frequentava. Nada contra os amigos que vêm visitar o Rio por uma semana e menos ainda que venham me visitar. Levando em conta essa hipótese conjunta. Você espera tanto pra ver os amigos que moram longe, que quando eles chegam parece que sempre estiveram aqui. E que qualquer coisa que façam juntos pode ser bacana, certo? Errado. Quando trazem gente junto e junto vem o pacote de "turismo" completo e sem devolução, mais errado ainda. Querem conhecer o que você já conhece, adivinhou. Tá bom vai, depois que a gente conhece um lugar sozinho e volta depois pro lugar acompanhado o lugar parece outro. E é. Não ter vocação pra ser guia não quer dizer, não venham me visitar, por favor.
Acontece que é também nessa mesma época do ano que as outras pessoas também gostam de vir ao Rio. Que os meus amigos queiram vir eu até concordo, achando ótimo mas os amigos e as famílias de todos os lugares aí fica demais. Porque? vocês pagam menos impostos que os outros? Eu mesma me pergunto. Não. Mas deveríamos. Filas pra comer, pra ver peça, pra entrar em boate, pra ver exposição, pra se limpar na ducha na praia, pra encontrar um lugar no mar, na areia, pra pegar cadeira, pra pagar a barraca, pra estacionar o carro, pra pagar a compra no supermercado, pra tirar dinheiro no caixa eletrônico, pra pagar conta nas lotéricas, pra mandar cartão postal no correio, pra usar a internet na lan house, pra comprar cartão da tim, pra comprar frapuccino na starbucks, pra experimentar roupa nas lojas, pra pegar o elevador, pra atravessa a rua. Etnias múltiplas mesclando-se empipocadamente em tudo que é lugar proliferando equivocada e absurdamente como se aqui fosse o único lugar do mundo pra visitar, oras...
Fora essa mania que gringo tem de abrir uma loja só pra ver se dá certo no mercado pra continuar com a franquia. É starbucks, burger king, subway.... coisas que o povão descobre depois e age como se sempre soubesse da existência. Aquele bando de gente fazendo fila sem nem entender o que vai no ingrediente. Tá saindo a dez reais a brincadeira do café gelado na capital com praia.
E calor, muito quente pra tudo que é lado. Pedestres esbarrando na gente como se fosse deles a preferência de não dar licença pra você passar. Pobre pessoa com cara de turista. Sem falar no um segundo de descuido ao travessar a ciclovia quando alguém te acena de longe e quase... chão e a mocinha da bicicleta seguindo adiante... pouco ligando.
Pegar praia em ipanema- janeiro é praticamente um teletransporte à praia grande no litoral paulista. Deus fez a praia limpa e zero oitocentos mas insistem em cobrar pra usar o banheiro. Se a praia é livre o mar também é e olha que essa gente leva ao pé da letra, até esperar a fila andar pra fazer xixi ou número dois, você já foi no mar mesmo. Ou aumenta o número de postos ou coloca cento e uma cabines químicas à beira-mar.
Milho cozido, tapioca, pipoca, churros, salsichão. A cara da praia, a cara do Rio. Podia era ter carrocinhas vendendo sucos orgânicos gelados no calçadão. A areia mais parece mercadão de mau gosto do que refresque-se, por favor. Olhou pro lado, perde as havaianas, pior as legítimas.
Os preços sobem, e lá estou eu dizendo aos amigos turistas que mando a canga de sessenta por trinta na baixa temporada pelo correio...
E depois sae todo mundo andando pelas ruas depressa como se mortos de fome fossem chegar antes de todos no restaurante. Indica um bom e a comida vem fria. É muita gente pra se organizar. E todos sujos de areia adentrando a taxis, lotações, carros, hotéis, padarias e restaurantes. Nada é pior do que ver essas pessoas andando de sunga pela rua atravessando o sinal da Visconde de Pirajá , com o corpo cheio de pelos suando em bica, de mãos dadas com aquele bando de crianças chorando de cansaço, sono e fome. Enquanto o tiozinho da sunga embolotada bebe a sua cerveja naquele suporte de isoporzinho sujo. Pior que isso só usando regata velha e mais uma vez, sunga e tênis com meia. Que mania feia essa que carioca tem. E lá vem a sua vez de entrar no banheiro. O tapete já está molhado, o papel higiênico já acabou e tem cabelo pra todo lado. Alguém esqueceu o shampoo dois em um e está usando aquele sabonetinho sem espuma pra tomar banho.
Aí chega a hora de sair a noite com os seus amigos. Não cabem todos no taxi e a galera tem de se dividir e acabam se perdendo, é um tal de ligar pra um que se perdeu do outro... e o interurbano é inevitável e a conta alta pra depois, também. E só pra variar alguns querem lapa, outros underground e mais dois ou três, não sair do barzinho. A noite começa as três da manhã, a boate já está lotada, todo mundo já está bêbado e meio que de saída. Você está parada na fila que não anda e lá vem aquele global que fala cinco minutos com o segurança e entre por trás.
Seus amigos olham pra aquilo e te olham meio torto como quem diz, "olha onde ela trouxe a gente", aí você descobre que o lugar tá cobrando bem mais caro do que deveria e você vai ter que entrar e pagar pra se divertir nem que for só por uma hora. Aquela hostess que te vê em todas, finge que não te conhece e taca na sua cartela o preço que é e pronto. Isso quando não encasquetam com o amigo que está de regata e vai ter que voltar pro hotel pra trocar de blusa, porque só entra de regata no dia gay da boate.
Nisso você já tá pensando em quanto tem no banco, faz a conta do taxi de volta mais o que gastou no barzinho e mais o que tem pra almoçar, jantar e levá-los a outros lugares nos próximos dias e se lembra que as férias não são suas e que de turista você não tem nada.
E aí bate o consolo que a galera saiu lá do outro lado do mundo onde todos eram mais felizes fazendo churrasco em casa, andando a pé pelas ruas da europa e entrando as oito da noite nos pubs sem fila. Mas o momento agora é outro e tudo tem seu preço, seu valor.
O momento vale mais do que dez chibatadas no banco pra bancar depois. A ressaca vai bater de qualquer jeito e dessa vez você não se arrepende de estar de salto alto e nem ter chegado em casa as sete da manhã. Só avisa que daqui pra frente vai é ser turista de alta temporada num lugar bem longe daqui.
by Ju Tahan.