
Contos, memórias e contos memoráveis.
Quarto escuro.
Amélia, nome dado sem qualquer remorso a Amelinha, não fez dela uma "Amélia" da vida.
Como mulher moderna, trabalha fora. Entrou de cara na psicologia. Curiosa, enxergava os problemas da família como simples patologias, fáceis de serem resolvidas bem como diagnosticadas. Estudando, entendeu o que depressão significa, conheceu teorias sobre o histerismo e outras neuroses.
Amelinha, filha única, sofreu. Sofreu de atenção demais. De espectativas demais. De ausência de irmãos. De dificuldade em dividir seu espaço com os outros. Mas também obteve ganhos. Teve o que quis.
Só que a Amelinha herdou certas obssessões. Por isso a psicologia.
Mania de falar com vozinha de criança. Mania de ter sempre as mesmas roupas no armário. Mania de ser sozinha. Mania de dormir. Seu tom de voz demonstra facilmente sua fragilidade. E olhando de perto, ninguém é normal.
Com o tempo, Amelinha foi obrigada a fazer análise. Precisava trabalhar contra a necessidade que tinha em dormir durante o dia. Além de concluir que também era maníaca.
Como se não bastasse as 8 horas de sono normais a qualquer ser humano. A rotina de Amelinha, baseava-se em acordar por volta das 07:00 trabalhar até as 13:00, almoçar, voltar pra casa e dormir. Completando mais 4 horas. A noite estudava.
Sua própria rotina já dizia. Havia repetitividade demais nas ações de Amelinha.
Em seu armário, roupas separadas por cores, milimetricamente arranjadas. Tudo muito cheiroso e limpo. Arrumava a cama todos os dias, sem deixar nenhuma curva na colcha.
E banhos. Banhos demorados. Dois ao dia. Um pela manhã, e o outro pela tarde antes de colocar seu pijama e dormir. É, ela colocava sim, o pijama pra deitar e dormir a tarde. Ao chegar da rua, lavava as mãos. Cinco, seis vezes. E quando ela pegava pra limpar uma coisa ela deixava a coisa verdadeiramente limpa. Nunca atravasa o pagamento de uma conta. Nunca guardava uma roupa suja no armário. Mesmo que a tivesse usado, uma única vez, apenas para ir ao supermercado.
Nas compras do mercado, os mesmos iogurtes de sempre. O mesmo pão de centeio da mesma marca, o mesmo suco, a mesma quantidade de peito de peru e queijo minas. E pro almoço, o mesmo restaurante, e as mesmas comidas no prato.
Os horários eram sempre os mesmos. Amelinha seria alvo fácil de perseguidores.
Mas não soubemos de nenhum que queira te-la seguido.
Tudo foi sempre muito bem planejado. Muito bem estruturado. Tudo muito limpo e tudo muito regrado.
Vivia um transtorno. Era T.O.C o que ela tinha.
Alguma coisa precisava mudar a rotina dessa moça. Bonita, jovem, única herdeira. E apesar de ter muitos amigos, não tendia à vida social.
Até que Amelinha conheceu um cara oposto à ela. Com ele ela penou. O rapaz era liberto, sociável, extrovertido, gostava de festas e viagens. Via nela a Amélia que ela não era. Via nela, a boa moça pra casamento. Enquanto Amelinha queria dele atenção e cumplicidade, Kiko queria dela espera e gratidão. Amelinha soltava sua loba e ele a estepe.
Tentaram por alguns meses, pegar no tranco. Em vão. Amelinha acelerava e ele dava a ré. Até que chocaram-se de frente. Prato cheio para a cura de Amelinha. Agora está obcecada por homens. Quer os muito limpos e cheirosos, que a coma todos os dias nos mesmos horários e nas mesmas posições.
Que vá ao mercado para ela e estenda sua cama sem deixar amassos. Que goste de peito de peru e queijo minas. Não abre mão de ter dois banheiros em casa, e diz também que quer guarda-roupas separados.
Ah, dormir junto, só se for com o quarto escuro e tem de bater na porta 3 vezes antes de entrar. Pra que dê tempo dela vestir a mesma calcinha cor-de-rosa estampada de ursinhos, própria para ocasião.
Perguntamos à ela, porque haveria de ser essa calcinha anti- tesão de sempre. Ela disse: foi com ela que me tornei a Amelinha que sou hoje.