segunda-feira, 20 de outubro de 2008


Fragmentos de um momento - que se fosse uma cena...

Sem marcar nada, sem esperar nada. Foi no momento exato em que você resolveu tirar os pés do chão e ir comprar uma bebida e esbarrou com quem queria esbarrar. Foi no momento exato em que comandou `a você mesmo,"vá lá comprar uma bebida"... e no instante em que a outra pessoa também foi e comprou uma bebida. Com os copos cheios nas mãos, vem logo a sequência da bebida comprada. É quando você se dá conta, que nem sempre é preciso fazer esforço pra que o instante seja idealmente cronometrado e perfeito.
Melhor mesmo é quando você vira a esquina e dá de cara com quem você queria dar de cara.
Quando derruba seus livros no chão e imediatamente (aquele que se abaixa) pra te ajudar será seu próximo affair ou próximo novo alguma coisa ( como acontece nos filmes), e, se essa cena se repete há séculos no cinema, é justamente pra mostrar que houve ali uma conspiração)...
Se a gente contasse os minutos para as coisas acontecerem, elas não aconteceriam com tanta graça, como é de fato, o proporcionado pelo real.
Se tivéssemos que filmar cada vez em que a gente joga o cabelo e vira a cara na hora certa, responde a um comentário com um sorriso de canto, gesticulando a mão direita para o lado, coloca a mão esquerda na cintura e olha pra trás de repente, juntamente com aquele olhar de volta que ao olhar de novo pra pessoa à frente faz com que a conversa que já estava ali presente, comece a ficar ainda mais sincronizada e o seu olhar e o dele dêm de cara juntos e a harmonia facial de ambos fique milimetricamente harmônica vista de longe por quem quer que seja, ou vista até mesmo pelo seu próprio ângulo - aquele que é capaz de ver, o que ninguém mais vê. É como se estivessem parados registrando o melhor ângulo, a marcação correta, com a iluminação adequada, na hora exata.
Leva menos de 1 min, pra que um instante seja único e mude o rumo de uma história de vida. Uma sensação nova, o começo de algo que não se sentia antes. Leva-se menos de um minuto pra começar uma história que dure a vida inteira. Ou fique registrada apenas ali, num meio momento. Leva-se menos de um minuto pra que a perfeição de um segundo leve a outras consequências, e a outros possíveis novos perfeitos momentos.
Que delícia é dar de cara com quem você quer dar de cara! O momento se congela. Se tivesse uma câmera pra registrar tudo, as caras e as bocas seriam feitas indo até à reação tomando forma. Mas na realidade, funciona diferente. Na real, segundos se congelam mesmo- se você repara- a reação tem sempre uma espera - que dura segundos. A reação vem viva, vem espontânea. E ninguém precisa repetir nada.
O que torna o momento perfeito é a reciprocidade das reações. (É chegada a hora, em que você pensa e a pessoa faz). Faz e a coisa acontece... Uma leitura de corpo, uma leitura de pensamentos. Instantâneas...sem demarcações.
"Então você está ali no canto, conversando com uma pessoa (é a pessoa que você queria estar mesmo ali conversando, naquele canto), ela vem e se aproxima é a pessoa que eu quero que venha e se aproxime. Ele chama pelo meu nome(e tem dias que escutar alguém chamando pelo seu nome é quase que ....poético), Fica perto, na roda....na sua, interagindo somente com você, e depois com mais alguém da roda e de volta somente à você. Qualquer concorrente que apareça parece não influir. Este é momento em que você tem a certeza de que seu corpo foi lido... os astros estão favorecendo. Mesmo caminhando e se juntando pelo caminho a outras pessoas, outros amigos, outras rodas, os comentários soam reservados, querendo dizer, fique. Me acompanhe, não se incomode, não fique ansiosa, estou vendo o que você quer, e espero estar demonstrando o que eu quero. Isso é capaz de ser percebido porque os olhos se encontram na virada certa de rosto, as mãos se esbarram na virada "em câmera lenta" de corpos, e assim vai...uma longa segurada de mãos que desvenda pelo menos 3 chances possíveis: 1- não saia daqui, 2- eu quero você, 3- quero mais.
Os corpos falam o tempo inteiro silenciosamente. E conversam entre eles. Antes mesmo de pensarmos em algo a dizer, os corpos já trocaram idéias e sabem o que querem, e com quem querem.
Química física e física quântica ! o espaço onde não se pode ter o controle das coisas que acontecem descontroladamente. Não há nada mais despretencioso que o momento real, que a força da natureza! Aquele que não precisa de time, script, nem das câmeras. Nem mesmo do olhar de uma pessoa que está além de todas as pessoas vendo todas elas, acontecerem!
O melhor mesmo é ver a cena pela própria pele, dentro dela, submerso a ela.
Sem que nada tivesse sido pensado antes.
Quando bate o vento e a coisa vem, ninguém segura. Os astros se reuniram e olharam pra você, firmemente, finalmente.
Um brinde!
O universo conspira...de verdade.
Sem lenda.
E como "a memória é uma ilha de edição", pudera alguém ter registrado isso, esse, aquele, naquilo... (ahhh - nessa parte, você tá querendo demais)!
...a perfeição de um momento que não volta - e não volta mesmo- e que muda tudo.
Eis que houve uma.

By Ju Tahan