quarta-feira, 27 de agosto de 2008


E saiu à francesa...

Acontece comigo não sempre, mas acontece.
E com o Fabiano foi assim.
Alguns homens ao bater o olho eu já sei se bate comigo.
Dizem que a lei da atração explica.
É algo no ar, o qual não sei com exatidão, como confere uma ordem.
Deve estar implícito nos átomos. Na epiderme. É química. E quando bate, bate. Um “bate” para cada um. Com o Fabiano foi. Dois “bates”.
Mas eu gosto dessa estória. E ela começa assim...
Morava em São Paulo. Meus pais, em Minas. Final de semana ia pra onde? Sul de Minas.
Num dia, conversando com um amigo que é o ex de uma amiga minha, disse- me ele de um amigo, o qual, precisava me apresentar. E repetiu: você vai gostar.
No final de semana seguinte, em Minas, ele aparece com o tal amigo. Dirigindo pra uma festa, os carros se cruzam e de dentro do meu, pude ver a cara do tal amigo, dentro do dele.
Percebi que era magro. E narigudo também. Não é que não goste de homens magros, nem narigudos. O instante é que foi curto demais pra aprovação.
Quando chegamos à festa, fomos apresentados.
Um tempo depois, percebi ele me observando.
Tinha algo de interessante no jeito dele. Pessoas nos atraem também pelo jeito. Não que seja uma dificuldade física de atração. O jeito, a rapidez com que as palavras vão sendo ditas com precisão, a forma de gesticular, são afrodisíacos.
Eu me lembro bem, estávamos numa turma de amigos posando pra foto quando a câmera imperrou.
Naquele momento, me flagrei discutindo com ele por causa da câmera e cismei que na minha mão ela fosse funcionar. Só fui acordar da discussão na hora em que me vi com a boca próxima da dele.
Sai dali no mesmo instante. - Porque é que a gente nega o impulso da vontade? - Porque é ela mesma apenas um impulso? o gostoso tem mesmo que ficar pra depois?
Fui ao toilete e quando voltei, passando de volta por onde estávamos, não havia mais ninguém. Continuei andando, foi aí que escuto um psiu sussurrado vindo da minha direita; era ele sentado sob o balcão de um bar desativado. Bem ali sozinho, mexendo comigo.
Me dar “psiu” pode me incomodar.
Curiosamente fui onde ele estava, pra saber o que vinha depois do psiu.
E foi quando ele me deu um abraço de pernas.
Então um alerta vem à tona avisando " você vai acabar cedendo" - afinal, contra o quê está lutando?
Fomos dançar e dançando forró, o cara pisou no meu pé três vezes. - Eu pensava nessa coisa de ter o remelexo. Pensei em desistir - nem me amarro em forró- E nada de beijo. Eu olhava pra boca dele e não me imagina beijando-a.
....Isso se dá numa daquelas tentativas que você mais uma vez, faz contra a vontade.
Brinca com a força da gravidade. Com a química, que se faz presente e você, teimosa, resiste....
e vai adiando. Foi tudo tão desastroso que perdi a tarraxa do meu brinco. O que eu mais gostava.
E foi então que ele me puxava pela mão e olhava pra todas as meninas que estavam na pista.
Eu sem entender nada.
Depois de um tempo paramos pra sentar e descansar. Uma menina se aproximou da gente e foi nessa hora que ele ofereceu à garota uma dose de whisky com energético em troca da tarraxa do brinco dela. Eu já tinha dado por encerrado mas ele não tinha esquecido.
E então entendi, porque ele ficava olhando pra todas as meninas que passavam - ou, quis entender - A troca foi feita e já com os brincos no lugar, procurei me concentrar nos lábios dele, a partir de então, passei a gostar daquele sorriso e da maneira como ele me entretia e arrancava de mim, risos, um atrás do outro. Quando você se concentra no jeito da pessoa, ela passa a ter certa magia pra você.
O beijo aconteceu. Terminei o beijo sorrindo e mal consegui olhar pra ele que imediatamente me entreteu num outro assunto, já me fazendo gargalhar e dali em diante percebi que eu estava diante de um constrangimento zero de situação. É como se já tivéssemos nos beijado, centenas de vezes.
No dia seguinte, eu no cabeleireiro e o cara me ligando...
Toda a turma no churrasco e ele lá, na porta da minha casa cumprimentando o meu pai e me esperando chegar da escova...
Não entendia tanta insistência da pessoa, ele tinha acabado de me conhecer.
Para mim era, só um final de semana.
Quando me dei conta, eu já estava no churrasco com ele e mais todo mundo.
Mais adiante e lá estava ele na minha casa, conhecendo minha mãe e jantando camarão na moranga, que ele insistia em chamar de bobó.
O final de semana demorou a passar. E é assim que acontece quando uma pessoa chega, entra com tudo na sua vida, sem avisar e ainda te deixa com o coração disparado e dores no maxilar.
A gente tinha que voltar. Cada um pra sua vida. Como pode ser tão insuportável, conhecer alguém que você sempre quis... mas que mora longe.
Casais de final de semana se separam por um único motivo: a segunda-feira.
Na hora do adeus, só o que pude fazer foi anotar meu telefone com o código zero onze.
Com o telefone na mão, vi que ele discava e se distanciou. No último tchau, ele disse pra quando eu chegasse em casa, acionar a caixa postal.
Senti certo alívio. E um pouco de curiosidade.
Pensei nele a noite toda. E a viagem toda de volta.
Quando pisei em casa, a primeira coisa que fiz foi escutar o recado:" Oi gatinha..Não preciso nem dizer quem ta falando porque você já sabe que sou eu... Adorei te conhecer...esse final de semana foi bacana demais, ainda bem que eu vim. Vou sentir saudades de você, a gente tem que se ver de novo, to me sentindo previlegiado por ter te conhecido...beijão... Achei graça naquilo.
Afinal, não é todo dia que você conhece alguém, que te ganha...Ele realmente conseguiu que eu ficasse pensando nele, ficando com o magnetismo no ar...
Alguns caras, realmente me impressionam com a segurança que já depositam num relacionamento.
E, a partir desse dia, nos falávamos por telefone todos os dias.
Era o que tínhamos, o final de semana em minas pra recordar e o dia-a-dia via embratel pra contar.
Alguns meses depois, não pude mais resistir.
Era reveillon, e tive que passar a virada com ele.
Lembro-me muito bem que a trilha sonora daquele ano, no auge era " Já sei namorar, já sei beijar de lingua agora só me resta ganhar..." blá blá blá...
Me lembro de ter ido muitas vezes à B.H naquele ano.
Tentativa ou erro. O que eu queria era estar perto.
O Fabiano era "duro". Não tinha grana.
Bem, era isso o que ele me passava.
Pois é, o jogo vira. Sempre vira.
Eu que pensava que tinha sido só um final de semana...
E na minha concepção existe uma força que diz quando você quer, você faz. Você vai ver a pessoa à pé, de bicicleta ou de trem. Divide o aéreo em várias vezes no cartão.
Eu estava apaixonada... e bem, não dava bola pra isso.
Fazia o que estivesse ao meu alcance pra estar perto dele. Um dos lados sempre acaba cedendo mais que o outro.
Erro ou tentativa, mais uma vez.
E os telefonemas duravam horas a fio, madrugada afora.
Certa vez em que estive em B.H estávamos os dois, caminhando a pé pelas ruas e passamos em frente a um ponto de táxi: - está vendo aquele ponto de TX ali? Disse o Fabiano. Eu ligava pra você de lá.
A caixa do telefone ficava destrancada e eu usava o telefone na cara dura. Sem ninguém ver, lógico. -Altos interurbanos pra São Paulo! mas também, não era sempre. E ..não me olha com essa cara.
Caramba,eu fiquei ali na hora, chocada.Só pensava calada, enquanto eu gastava horrores de conta telefônica, o Fabiano usava o telefone do taxista! Na hora, nem consegui fazer um comentário rude. Mas isso ficou na minha cabeça...
E não é que num belo dia, estou eu, na casa dos meus pais em Minas, toca o telefone, eu atendo. Do outro lado da linha, uma voz masculina me perguntava “de onde é que está falando?” - é da casa de quem? Eu não disse, mas perguntei o que era. O homem possesso perguntava se eu conhecia alguém de Belo Horizonte, porque era do ponto de táxi que ele estava falando e tinham diversas ligações na conta do ponto para o meu número. E eu tive que dizer ao taxista que eu não conhecia ninguém de lá.
Depois contei ao Fabiano e acabamos por rir muito dessa estória. Em “contrapartida” - e, adorávamos usar essa palavra - diga-se de passagem, abominei o ocorrido e fui obrigada a ser rude.
Certas atitudes do Fabiano, eu não compreendia.
A gente combinava muito mas destoava também.
Brigávamos pra falar, pra fazer, pra dançar, pra beber, pra comprar, pra comer... De idéias de girico à empreendimentos mirabolantes.
Ele sempre teve uma visão mais prática da vida.
Opostos se atraem?
Gostava de me entender pelos olhos do Fabiano.
Ele enxergava coisas que são muito minhas, sem que eu dissesse. Sempre entretendo, me despertando, me fazendo refletir.
O bacana de se relacionar com alguém é isso, é se conhecer cada vez mais com o olhar do outro.
A gente quando se relaciona, relaciona-se com a gente mesmo. É uma troca. Até que ela deixe de fluir...
Seu melhor amigo nos dizia: “ dois bicudos não se beijam”...
Isso foi há seis anos atrás. Eu tinha vinte e dois. E ele também.
As demonstrações de afeto, vinham por sinais. Sempre em uma música, ou num filme. Emocionalmente complexo. Porém prático, sincero.
Ele sempre me disse todas as verdades, mesmo que doesse.
Consegui tirar um “eu te amo” dele, uma só vez, dito. E uma vez só, escrito. E numa dessas vezes, ele me perguntou: O que é o amor pra você? eu disse o que sentia. Taí, ele disse...então eu já posso dizer que te amo.
Trocávamos presentes sem data comemorativa.
Quando eu partia deixava com ele, um objeto meu.
O que ganhei dele uma vez, foi um quadro que era do pai dele. Uma camiseta usada pra eu dormir. E um cd que ele gravou com as músicas que ele mais gostava com a seguinte prescrição: "pra você se lembrar desde o dia em que te abracei com as pernas até hoje"...
Mas o que mais me surpreendia era a forma como eu me comportava quando estava com ele. O mundo se abria. Eu pensava em quantas coisas boas e produtivas podíamos fazer bem juntos. Uma parceria que podia dar certo, afetiva-física e profissionalmente.
Por isso a importância de estar perto quando se mora longe. Por isso a importância da convivência assídua entre as pessoas que se gostam e vislumbram um futuro juntos.
Ele me deixava inteligentemente boba e à vontade.
Ele sabia o que estava por detrás da minha forma de agir e lidava com maestria.
Como se lesse meus pensamentos e imediatamente agisse de acordo com eles. O único a conseguir tal façanha.
E lá estavam, todos os meus desejos concebidos, e romanticamente dizendo, a impressão de termos uma sintonia fora do comum e que o nosso amor estava além de todos.
Resultado: sorriso mútuo na cara.
É como todos os apaixonados pensam: “somos invencíveis”.
E só pra completar o discurso de quem ama: “Ele tinha formas de me olhar que mesmo de roupa, eu me sentia nua.”... Uma vez, me desenhou dormindo.
Noutra vez, chorando pra nos despedir eu disse: como sou boba, porque choro?
E ele sutilmente respondia: porque isso é bom ... isso que a gente está sentindo é bom... Me despedir dele era como deixar uma parte boa de mim, pra trás.
Duramos alguns anos.
Eu voltava a ocupar o posto de distanciamento incontáveis vezes.
Acho que me apaixonei por ele umas quinzes vezes. Na época eu pensava que se fosse homem, seria como ele.
Ele tinha um jeito único de me fazer sentir. Mulher dele. Com ele. Ao lado dele.
Ninguém chora à toa. Quando o choro vem é porque algo vai deixar de existir. E foi a última vez que ficamos juntos de verdade, ele estava indo morar na Inglaterra. E foi. E eu, fiquei.
Todo relacionamento se não é pra ser, tem começo, meio e fim.
Todo sentimento nasce, cresce e morre.
A não ser que você consiga se apaixonar pela mesma pessoa, muito mais que quinze vezes. Ficamos vulneráveis. Mudamos de ares. Perdemos a convivência e ganhamos mais, muito mais liberdade.
Ficamos cada qual com a sua vida, na vida como ela é. Ele lá e eu aqui.
Outras pessoas chegaram, entraram, saíram. Outros sentimentos melhores e piores vieram.
Alguns renovaram, foram reconstituídos.
Foram tomados por outros.
Mas uma marca bem feita, sempre fica. Sempre resta uma pontinha de um passado bom, cravado na memória.
E quando você não quer lembrar, pensa apenas no que aprendeu.
Porque todo amor,dói. E demora um tempo pra você ficar pronto de novo. Se abrir.
Eu gostei do Fabiano, profundamente.
Pela primeira vez, saquei ter encontrado uma pessoa que eu teria o que conversar pra sempre. A história era muito prática. Uma pessoa sempre entra na sua vida por um motivo único. As que valeram realmente a pena, trazem a razão do motivo. O motivo fica e não se perde. Eu fui única e original com ele, que é como deve ser. Tentei deixar com ele também a minha razão e o meu motivo.
Mesmo assim, não esqueci fácil, não deixei de gostar fácil. Senti saudades, milhões de vezes.
O mundo dá voltas, eu sempre pensava... mas com ele, não deu.
A questão é que as pessoas mudam. As coisas mudam. O tempo não pára. O meu tempo não é o mesmo que o seu, que o dele, e....enfim...!
É melhor ser prática pra não ter que escrever mais umas trinta páginas.
Sem muitas voltas,
FIM>

OBS: O nome Fabiano é pseudônimo.
- ... Ontem mesmo te liguei pra dar Feliz aniversário...disse eu: te desejo o melhor e você disse: "Obrigado por ter se lembrado, eu mereço".
By Ju Tahan

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