quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Tá filmando?


Nos movemos o tempo todo. Impossível não dispersar impedindo a profundidade do que se mostra.
É pra isso que serve uma câmera. Ali parado aquele olhar absorve o que está em movimento.
Só passamos a visualizar plenamente quando observamos com percepção. É a nossa percepção que define a imagem. E revela as impressões dos gestos, o tom, o olhar, as cores atribuídas. As atitudes multifacetadas separadamente. A alma que é vista. O que foi visto daquele universo.
Se não quer ser visto, não trabalhe com imagem. Você não vai conseguir se enganar por muito tempo.
Você quer ser humano ou um “dançarino”?
A superficialidade mundana nos distrai. Pouco se concentra absolutamente no individuo.
Enquanto se move, tenta equilibrar-se pondo a prova suas excentricidades. Estamos em constante transformação. O íntimo numa dimensão mais profunda. A nos arrancar dos nossos silêncios prolongados. Absorvendo o silêncio dos outros. Lendo as entrelinhas.
Ultrapassando as barreiras dos nossos limites. Pra que não sejamos pequenos quando é preciso ser grande.
Transmutando nossos desejos e necessidades internas. Jamais calando a inquietude.
Da necessidade de transformar o passado, já imóvel, agimos no presente para sermos os senhores do agora. Já que o futuro, só amanhã. O agora é a ação do que transcende em nós.
O intenso percebe os segundos agindo lentamente nas profundezas de cada movimento. O distraído vê apenas o resultado final do movimento todo.
Somos maiores quando melhores. E a tendência é melhorar. Aprimoramentos necessários. À altura do que buscamos. Só pioramos quando permitimos a diminuição. O que não obedece ao fluxo da ordem natural das coisas. Somos partes de uma evolução em movimento constante. Crescemos indicando o caminho a nossa transformação interna. Enquanto o corpo obedece à gravidade.
Nós podemos tocar o que está mobilizado. Como também podemos tocar o que está em movimento. Temos que saber como agarrar um intervalo e outro.
As sensações não são palpáveis. Podemos até sentir o que um outro sente. E ver como ele vê. Mas não na mesma dimensão.
Nós podemos descrever impressões. Nós podemos captar o que está implícito. Mas não podemos invadir completamente o que está estático e o que não e não pode e não quer ser tocado.
É por isso que procuramos a arte de revelar nuances. Porque buscamos o peculiar. E nem todos entendem o ponto que define uma singularidade. A verdadeira nuance a ser atingida está intrínseca numa essência que se revela aos poucos. E quando se revela. E para quem é revelada. Porque poucos captam o segundo de um lampejo de uma peculiaridade reveladora. Aparece neste instante, a chave para o entendimento. Para uma inclinação mais sábia.
Jamais seremos todos iguais. Porque nunca passamos a mesma mensagem da mesma forma para todos. E as linguagens se misturam muito. E o entendimento chega de diferentes formas. Cada olhar, como único que é, modifica as impressões percebidas. E cada um controla a impressão que tem. E somos sempre mais do que os olhos podem ver.
Só as nossas intenções é que podem vê-las sob um outro ângulo. Aquilo que se apresenta tal como é, é apenas uma apresentação a ser vista.
E depois de captar a imagem que queremos que seja vista, e ainda, a que queremos ver, ainda resta algo a ser filmado.
É misteriosa e particular a forma de penetrar nossos olhos no mundo. Porque as visões estão em constante transformação. E o mundo de cada um é uma particularidade.
Sorria, você está sendo observado. Não se substime estamos todos sendo filmados.

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