quarta-feira, 15 de julho de 2009


Contos, memórias e contos memoráveis.
Desenterranto a "mardita" - a emboscada.
Augusto nasceu na família Junqueira mas também na Barbosa, o que não o desclassifica de uma nem outra. Quem conhece sabe. Um Barbosa que se preze "perde o amigo mas não perde a piada"... Perna mole, queixo duro. O bom Junqueira da vida, tem no sangue, o gosto de uma boa cachaça.
A bebida é para Augusto sua fonte inesgotável de alegrias. É o lado sereno do extravasar contido.
Para Augusto o mundo podia cair ...mas se tivesse a branquinha do lado, podia então despencar do barranco.
Augusto sempre teve um bom coração. De muitos amigos e de um só amor. Com Lena teve três filhos. Estes, misturaram bem os sangues. Puxaram dos Barbosa a piada e os amigos. Dos Junqueira a fonte inesgotável de alegrias. Cuidado com as heranças. Elas podem causar dependência.
É pois é, Augusto ensinou bem, e se for ver bem, não ensinou, foi mesmo uma questão de sangue.
Dizem que quando jovem, os escandâlos alcólicos dos Junqueira eram homéricos e como não podia ser diferente, faziam bodas na cidade. Sempre com uma certa leveza. São tradicionais.

Ele mesmo, mora na rua com o nome do ilustre coronel "Olavo Barbosa", seu avô e é vizinho da mãe. Conversam da janela. Contam piada de longe. É um entra e sai que só acaba quando um e outro tem de sair de fininho. Incomum todos eles têm, uma certa lealdade para com os cachorros, vira-latas de rua tem lugar cativo e é claro, fermentados e destilados, lugar sagrado.
Casa cheia nunca foi demais para eles. Acostumados, tinham bar na cidade e sabem muito bem ser populares. A simpatia e a extroversão também é de sangue dos Barbosa. " Tamo junto e tudo misturado" ... e é por ai.
Só que um dia a casa cai. Beber para Augusto era a maior gostosura mas para o fígado dele, não.
O bichinho reclamou e Augusto foi obrigado a parar...
Dizia ele que "o gostoso é a zuada que dá na cabeça". Eis que a cabeça de Augusto parou de zoar.

Comovido, passou a cuidar mais de si mesmo. Foi promovido no trabalho, mudou de casa, de cidade e vai receber uma grana boa do governo. Estabelecendo assim, um novo legado.
Longe dos filhos, mora agora numa cidadezinha distante, há mil quilômetros da terra natal. Aos cinquenta anos, quis até ser pai de novo. Lena, a esposa, apaixonada se não tivesse ligado as trompas, teria tido o quarto. Em lua de mel, uma nova fase se apresenta à eles. É a pós alcolia de Augusto - uma mistura de melancolia com abstinência - que como qualquer outra fase traz suas consequências. Foi então que Augusto lembrou-se de uma pinga enterrada num sítio prá lá de Montes Claros, cidade esta onde obteve em sua juventude, momentos felizes.

Sem nada beber, há meses entrou em trabalho de parto. Queria porque queria desenterrar a pinga. Convocou os filhos para o momento histórico.
Dois deles, saíram do sul de Minas com as namoradas e um destino de mil kilometros pela frente.
Sua outra filha, saiu da capital São Paulo rumo a uma viagem rara, lenta, traumática e inesquecível. Durante vinte horas conviveu com o pesadelo de dividir aromas de frango com farofa, suquinho artificial de laranja, amendoizinhos de pacote com guaranazinho de abacaxi e poucas, muito poucas paradas para um eventual cigarrinho. Uma idazinha básica ao banheiro estático. Vidros imperrados afim de respirar ar puro. Celular fora de área pra um caso de desabafo do bafo do ônibus e de si mesma. E uma vontade louca de gritar e sair correndo, que se dependesse dela com uma latinha de cerveja na mão teria era gritado mesmo: seu bando de farofeiro, nunca viram frango na frente não? E você ai na frente moleque ranhento pára de arrotar esse fedor de guaranazinho jota efe misturado com as porcarias que voce come com essa bunda gorda sentada nesse banco fedido.

Emputecida, a filha de Augusto chega exausta na cidade cuspindo marimbondos prometendo a si mesma e berrando que naquele ônibus ela não faria o caminho de volta.
Conhecendo bem a família Barbosa, tenho certeza de que a frase exata foi: "pau no cú dos prejudicados"...
No hotel, a família ocupou um andar todo. Imagino as portas dos quartos todas abertas como se estivessem na sala de suas casas gritando de um cômodo ao outro: "Priscila, não vai mijar na calça de tanto rir"..., "Augusto ce naõ pegou a enchada, viemos até aqui e agora não tem com o que desenterrar a pinga"..., "André vai na vendinha ali embaixo perguntar se eles têm uma pá pra gente comprar"...., ah eu vou sim, com certeza, o rapaz vai perguntar pra mim... essa aqui é boa pra plantar muda pequena e essa boa pra plantar muda grande, qual das duas vc quer?.. e vou dizer pra ele, pra desenterrar uma pinga de uns trinta e dois anos mais ou menos, você tem...?"

Engana-se quem pensa que eles não sabiam mais onde estava enterrada a pinga e perderam a viagem. Acertou quem pensa que a pinga virou vinagre. E eles perderam a viagem.
Não prestou foi pra nada. Só pra virar mais uma das histórias da família Barbosa.
E desconheço o final que teve.
Só sei que a Priscila aceitou ir de ônibus até Belo Horizonte e de lá alçou vôo de volta a "capitar"...chegando mais uma vez exausta do final de semana fatídico.
E o Augusto que pensou que ia negar a "mardita", foi negado por ela.

Fazer o que? ... Acontece. Nas melhores famílias.
Se tivesse sido enterrada no sítio dele, bem debaixo do seu nariz, era bem capaz da pinga ter estado boa.





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