quinta-feira, 21 de maio de 2009


Faço da quinta, a mais bem-intencionada.
No horóscopo dos arianos, consta que o melhor dia da semana pra gente é a terça- feira.
Ariano é cabeça dura, você já deve ter ouvido falar.
E como sou uma ariana que se preza, resolvi que não. O dia apropriado à mim cai sempre numa quinta-feira.
Coloquei uma magia em cima das quintas que esse dia da semana se revela à mim, como o dia propício às transformações.
Quintas são convidativas. É a pré da sua sexta-feira. É um dia até nostálgico se for ver bem. É um dia da semana, que se cai com feriado, te deixa emendar com o dia seguinte. É o faniquito querendo despertar. É o dia do plano. Da audácia. É o dia do desejo de querer mais.

Não fui à praia, não andei pelas ruas de Ipanema, não gastei com o que já tenho, tão pouco parei em lugarzinhos pitorescos à espera de ordenar meus pensamentos ou ver pessoas trafegando pelas ruas. Embora dar um pulo na “travessa”, fosse típico de uma quinta-feira.

Eu saí foi cedo de casa. Pra sentir o cheiro da brisa que bate na Urca nessa época do ano, um pouco mais fria. Pedalo enquanto observo casas desenhadas arquitetonicamente para o bairro. Das que não ficam na Orla, terraços e janelas charmosas se oferecem aos olhares. Das que não ficam, insinuam-se lindas tanto quanto. São menos óbvias. Ali e acolá residem pessoas que não vejo entrarem ou saírem de suas casas, não sei qual a idade que têm, ou o que fazem. Imagino apenas o quão agradável deve ser o deleite em meio a tamanha tranquilidade e imponência de se viver.

Na volta, procuro observar a graça da minha rua. Arvores altas e delicadas, se entrelaçam cobrindo o céu de verde. Tem até um pau brasil de 1982 bem em frente ao meu prédio. Poucos carros me pedem licença. Pedalo olhando pra cima como se quisesse puxar o ar puro todo pra mim. E agradeço o meu sutil observar das coisas que estão ao meu redor todos os dias.

Passo pela hall de entrada, o porteiro simpático me entrega o jornal. Subo pensando numa rádio com músicas bossa-nova pra relaxar e enquanto ligo o som, ponho reparo na minha parede também verde, e que apesar de não ser minha, sinto o quanto a cor me traz o sossego que eu antes encontrava, numa rede preguiçosa na chácara dos meus avós. Ligo um incenso que traz escrito na caixinha, pêra com especiarias e ervas do campo, “ portal do sucesso”, e eu ainda reparo nessas promessas na hora de escolher o aroma. Acendo e deixo tocar musiquinhas Mpb.

O jornal me olha como se meu dever fosse engoli-lo todos os dias. E como toda ariana feliz, só quero notícias boas e agráveis pra começar bem a minha quinta especial. Me rendo então, a coluna do Contardo Calligaris. Como não poderia ser mais do que bem-vindo, escreve as quintas-feiras na Folha de S.Paulo. Sublinho alguns dizeres, porque essa é uma mania que eu tenho. Assim como sublinho as frases boas dos livros.

O que me salta aos olhos, desta vez, é a pergunta lançada: “No mundo desencantado, como não empobrecer nossa experiência?”
É então que me lembro de partes da minha rica infância, da primavera na chácara dos meus avós, do cheiro de bolachinha de nata, da gangorra vermelha rodeada de margaridas e o balanço enferrujado que me deixava mais próxima das estrelas. Subir na mangueira da casa da minha avó e ficar horas no meu galho preferido chupando manga.
Eram os desejos favoritos da minha infância.
Não deixar morrer nossos desejos é a resposta que eu tenho para o não empobrecimento da nossa experiência na vida. O que remete a uma outra frase também lançada por Calligaris, “ a maior traição é a do nosso próprio desejo”. O ideal seria então, nos trairmos menos. Ou, ser fiel aos nossos desejos.

Nos transformamos em pessoas menos felizes quando deixamos de realizar o que desejamos. E quando deixamos de ver beleza e magia nas coisas simples da vida.
Só que nossos desejos não são todos prontos ou estão em fila indiana esperando a sua vez chegar. O que faria com que experimentássemos todos eles. Quem de nós só faz o que deseja? Se poucos sabem o que realmente desejam?

Enquanto isso, escolho uma sugestão e fico com ela: o mistério da simples presença.
A simples presença por si só, traz todas as possibilidades de encanto.
Eis um rico desafio à nossa experiência divina, já que é um mistério.
Sendo assim, termino a poesia. Fazendo fundo a canção “ eu caçador de mim” do iluminado “Bituca”, na 90,2 Fm.

Não, não quero ler sobre desgraças e politicagem, oferecidas nos jornais. Acabo de dobrá-lo e deixar num canto. Essas notícias me fazem lembrar a existência do desencantamento de mundo. E como toda ariana não pode perder seu romantismo, pra que lembrar que estamos cercados por pessoas que querem nos transformar em objetos de suas funcionalidades?... Muito bem incitado por ele, meu querido Contardo. Ele sim, me conta as coisas que quero saber. Ele sim me faz acreditar que o “portal do sucesso” existe.

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