sábado, 5 de dezembro de 2009

Completa aí

Disse Ezra Pound "artistas são antenas da raça humana. São percebedores profissionais, gente que capta: as máscaras e o cerne das coisas da vida".

Artistas são pessoas que enxergam o comum com outros olhos. Veem no cotidiano a oportunidade de transformar tolices, banalidades, manias, tragédias, antecipações, discursos, diálogos repetitivos ou instigantes, fatos em obra. Cada qual ao seu mundo, com a obra que lhe cabe.

Escritores precisam entender de gente. De sentimentos, de emoções, de libido, precisa entender como o ser humano se expressa, se divide, se mata, renasce, descobre, ignora, desconfia, sobrevive, interage, comunica, trai, mente, entrega, desconstrói, ama, desama, necessita, amargura, inutiliza... Precisa entender de cenários constantes, pano de fundo de todo dia-dia, precisam se locomover, se movimentar, deitar sob suas incertezas, levantar-se pelas verdades que acreditam, pela fé, pelo amor que ainda desconhece dentro de si mesmo e por todas as buscas que ainda irá encontrar. E o quanto doa seus sentimentos a vários ao mesmo tempo. Ele precisa ter ouvido para a música que ajudará a vibrar sua estória.

Precisa tomar um gole de cada personagem que está construindo, se passar por louco, ser o último dos nerds, um serial killer ou um amante à moda antiga. Sem identidade, com personalidade forte. Hã????

Tem que ser capaz de mergulhar em mundos diversos, diferentes do dele. E entender de gosto, de cores, vestimentas colocadas e retiradas para a nudez da beleza natural e despida de si.

Precisa ver nuances e enxergar além do que é visto pela maioria ou mesmo a pequena minoria. Precisa ser capaz de entrar na pele do outro e conduzir-se a outra mente, procurando desvendá-la ainda que a medida de sua própria visão, os temores semelhantes e encorajá-los a fala e à releitura da linguagem que enfim possa fazer melhor como tomaria coragem consigo mesmo a encarar também suas tantas dores, delícias e alegrias que ora compartilhamos outrora desconstituímos.

Um escritor precisa saber olhar. Como se seus olhos, fosse a câmera a captar ângulos imprescindíveis, gestos que revelam silenciosamente uma intenção. Que saiba identificar o poder da fala no instante em que ela se ausenta ou cresce e como quem não quer nada, mostra suas garras. É também aquele que enquanto pensa, capta, entende, imagina, digita, sente, encontra soluções, ri de si mesmo, dramatiza com o outro, ou simplesmente dramatiza, lhe ataca, se defende, fere e encanta. E tenta aproximar-se ao máximo da verdade, da pureza, do tom, do que não está evidente e de esconderijos e armadilhas colocadas pelo trabalhar natural da mente e da indução e redescobrimento dos acontecimentos. Precisa ter certo contato com a psicologia. Precisa entender da história de sua própria vida para que intensamente possa mergulhar na profundidade das histórias que lê, que escuta, que vê.

Precisa sentir e se emocionar muito mais do que as outras pessoas normalmente sentiriam.

Precisa sair do supérfluo, se esquivar de mediocridades, aniquilar futilidades. Para que não seja consumido demais por coisas.

Entender que ter é só o que se adquire e ser é jogar-se no abismo. Arriscar-se às escuras, ao desconhecido, ao que ainda não foi estipulado nem totalmente consumado anteriormente.

E precisa entender da força dos acontecimentos para que saiba o ápice do que ocorreu. E então saiba escolher. Por onde começar, como prosseguir e quando terminar.

Que saiba a importância das relevantes perguntas e questione sempre e quantas vezes puder. E não se contente com respostas mal dadas. Nem com a contenção do próprio contentamento.

Que saiba identificar forças, inteligências, potenciais. E acredite nas suas.

E que enfim forme parcerias adequadas, pois não poderá expressar sozinho todas as artes tão próximas e interligadas a sua obra. E conheça o seu lugar, tão vasto mundo mas seja flexível a tantos outros possíveis.

E enquanto não puder colocar sua obra original, sem interferência democrática ou hipócrita em jogo, em vida, que ainda assim, a faça com alma e amor. Pois em suas entranhas reside a satisfação em contribuir com o todo, a parte que lhe cabe neste latifúndio.



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