Contos memórias e contos memoráveis.
Quintal
Isa e Suzana tinham os galhos preferidos. Toda tarde depois da escola na casa de vó Lourdes. Tomavam e comiam café com leite e pão francês com queijo branco no forninho, especialmente preparados para elas. Depois, iam direto pra árvore.
As 17:00. Exatamente as 17:00 e sempre as 17:00, Ana que morava com vó Lourdes saía de seu quarto pro quintal com a vassoura nas mãos correndo atrás das meninas. Ambas corriam para a mangueira e dé lá, só desciam ao escurecer. E Ana sabia disso. De cima a vista era boa: Ana falando sozinha a colocar roupas no varal. Trocava o saco de lixo, cortava as rosas do canteiro com a faca e vez e outra, olhava com esforço para as duas no topo do galho mais alto. Certa vez, Ana falou tanto, disse tanto que quanto mais retrucavam mais mangas caíam. Vinha com a vassoura e limpava os ciscos. Ainda crianças, as meninas não entendiam onde Ana queria chegar. O quintal não era dela. Nem mesmo a árvore, ou as frutas. Ana tinha seu quarto e nunca abria a janela. Estava sempre com a mesma roupa e varria com a mesma vassoura. Não tinha dentes na boca e nunca souberam sua verdadeira idade. Avô Hélio, chegava da rua com os bolsos cheio de dinheiro e lá da porta da cozinha gritava para as meninas: - Quem quer tomar sorvete? Mostrando as notas.
Mas nem o sol, nem o calor, nem sorvetes muito menos o medo que tinham de Ana, tiravam as duas da árvore. Ana via Hélio e por segundos, ficava calada. Em seguida voltava a falar sozinha sem parar. As meninas só foram compreender que Ana não falava nada com nada, no dia em que uma manga caiu em sua cabeça.
No susto, chegou a falar um pouco mais alto. Mas ainda assim não sabiam o que ela dizia. Apontou o dedo, como se fizesse uma ameaça. As meninas gargalhavam. Neste dia, vó Lourdes não estava em casa. Estavam sozinhas na presença de Ana que desolada, entrou para o quarto. Escurecia. Isa e Suzana não tiraram o olho da janela do quarto de Ana, que não ascendia a luz. Com medo, desceram da árvore. Quase chegando ao solo, a porta do quarto de ana, de frente para a árvore, se abriu. As duas correram como se aquela fosse a gincana de suas vidas. Entrando cozinha afora. A porta da cozinha da casa de Lourdes, é daquelas que tem grade e vidro. Trancaram-se abrindo o vidro afim de ver Ana vindo em direção. Com a vassoura nas mãos, Ana retrucava. Foi aí que as meninas puderam ver de perto a perna de Ana, que só usava saia comprida. Falava e falava levantando a saia, mostrando às meninas um ferimento aberto. Apontava para a ferida e reclamava. Aos berros, fecharam o vidro com tudo, tremendo de pavor. Vô Hélio apareceu tranquilizando. Com o bolso cheio de balas deu três pra cada uma levando-as dali.
Tempos depois, já crescidas, ao visitar vó Lourdes, procuravam manter certa distância daquela senhora que metia-lhes horror. E já não subiam mais na mangueira. Mas Ana não. Guardou suas faces. Ela que nunca, jamais deixou que ninguém entrasse em seu quarto, ao ver Isa puxou-a pelas mãos levando-a até o quartinho. Falando e falando. Desesperada Isa sem nada entender, foi rastejando. Ana tira um molho de chaves do bolso do avental e destranca a porta. O cheiro que bateu era insuportável. No escuro Ana não pôde ver como era o misterioso quarto. Viu apenas a sombra de uma cama. Ana pegou uma foto por debaixo de roupas mostrando-a para Isa. Era a foto de uma moça jovem que Isa desconhecia. Ana falava e falava. Isa não entendia absolutamente uma palavra do que ela dizia, já querendo sair pedinho aos céus que alguém a salvasse. Consigo mesma pensava: "que língua ela fala... Como vovó pôde durante anos deixar que Ana morasse aqui, sem nunca ter sido compreendida".
Saiu dali afoita. Saiu do quintal e ficou perto da mãe. Às vezes, Lourdes chegava com uns pacotes de fraldas. Dizia que era para Ana. E Hélio com salgadinhos. Entregava para Ana já cortados em pedaços pequenos.
Conta vó Lourdes que Ana não tinha ninguém. E que já mais velha por piedade e solidariedade deixou que viesse morar no quartinho do quintal de sua casa. Até que um dia, resolveu entregá-la a casa de repouso. Indo visitá-la de tempos em tempos. Mas Ana já não a reconhecia e mal falava. Em uma de suas visitas, apenas entregou à ela uma medalinha de nossa senhora das medalhas. Vó Lourdes conta que foi triste. Anos depois, já haviam esquecido de Ana e aconteceu de vô Hélio falecer. Curiosamente, no mesmo dia, no mesmo horário do enterro, no velório municipal, lá estava o corpo de Ana. E apenas duas senhoras velavam seu corpo. Vó Lourdes conta as senhoras eram da casa de repouso. Isa entrou para ver mas Suzana não.Ao se aproximar de uma das senhoras que ali velavam o corpo, uma delas segurava uma foto nas mãos. Isa pendurou-se pra ver. Era a mesma foto que Ana mostrara à ela.
Na casa de Lourdes ainda está lá, o quartinho, a vassoura e a bacia onde Ana lavava os pés.
Na árvore, mangas. Em época de mangas. Mas nunca como na época em que Hélio era vivo e as meninas, crianças.
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